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Sob gestão da Equatorial, Piauí fica mais tempo sem energia

Dados da Aneel mostram que piauienses ficaram 10 horas a mais sem energia este ano do que em 2018

 
O piauiense ficou dez horas a mais sem energia este ano do que em 2018 (Gráfico Piauí Negócios)

 O piauiense ficou dez horas a mais sem energia este ano do que em 2018 (Gráfico Piauí Negócios)

 
 

Pouco mais de um ano operando no Piauí, a Equatorial está deixando os consumidores mais tempo sem fornecimento de energia do que na gestão da Eletrobras, que operou no Estado até outubro de 2018. Segundo um levantamento feito pelo Piauí Negócios junto ao site da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), os piauienses ficam sem energia elétrica 10,6 horas a mais entre janeiro e outubro deste ano, do que no mesmo período do ano passado. Foram 29,4 horas sem energia em 2019, contra 18,88 em 2018.

 

A quantidade de horas sem energia é chamada tecnicamente pela Aneel de DEC (Duração Equivalente de Interrupção por Unidade Consumidora), que também possui outro indicador, a FEC (Frequência Equivalente de Interrupção por Unidade Consumidora), que mede a quantidade de vezes em que a concessionária deixa a população sem energia. O DEC e o FEC são editados pela agência de forma a exigir que as empresas de energia mantenham um padrão de continuidade. O desempenho de todas as concessionárias do Brasil é público e está disponível no site da Aneel.

 

Segundo o DEC, o mês em que o Piauí mais ficou sem energia este ano foi em fevereiro, quando a população ficou 5,21 horas no escuro. O mês de melhor desempenho foi julho, com DEC de 1,73 horas.  A Equatorial Piauí atende a 1,3 milhão de unidades consumidoras.

 

Apesar de mais horas sem energia, o número de vezes em que o serviço foi interrompido foi menor este ano, em comparação com 2018. O FEC de janeiro a outubro deste ano foi de 10,94 horas, contra 11,56 do mesmo período do ano passado, ainda na gestão da Eletrobras.

 

Gráfico no site da Aneel mostra os índices de DEC e FEC da Eletrobras em 2018 (Reprodução)

 

Os gráficos da Aneel de 2019 mostram que o serviço piorou no quesito horas sem energia (Reprodução)

 

 

Empresa rebate e garante que melhorou o serviço

 

Apesar dos indicadores da Aneel, o diretor de Operações Técnicas e Comerciais da Equatorial Piauí, Cosme Cezario, garante que a concessionária melhorou os serviços prestados à população piauiense, em relação à falta de energia. Segundo ele, os números de concessionária anterior estão melhores no site da Aneel porque a Eletrobras ignorou, na apuração do DEC, cerca de 500 mil unidades consumidoras, avaliando apenas os outros 800. “Foi uma falha na contabilização, e nós já informamos à Aneel sobre isso. Caso fosse analisada toda a base (1,3 milhão de clientes), o DEC da Eletrobras seria 90% maior do que o que foi divulgado pela Aneel”, justifica Cezario.

 

Procurada, a Aneel não havia se manifestado até a publicação dessa reportagem sobre a reclamação da Equatorial.

 

Cosme Cezario reforça que a Equatorial investiu em 2019 R$ 380 milhões na melhoria no sistema elétrico do Piauí, e outros R$ 320 milhões na modernização do atendimento ao consumidor, dando mais celeridade à resolução de reclamações. Recentemente, a empresa criou a atendente virtual Clara, que se comunica pelo WhatsApp com os clientes e que já chegou a receber 800 solicitações por segundo.

 

Cosme Cezario, da Equatorial, diz que faltava investiimentos no sistema elétrico do Piauí (Foto: Ascom Equatorial)

 

O diretor reconhece, no entanto, que recebeu o sistema elétrico com muitos problemas. É o caso dos transformadores, que têm a capacidade de atender entre 150 a 200 unidades consumidoras, mas há vários ligados a até 600 clientes, o que prejudica a qualidade da energia entregue. “Dos 6.800 transformadores existentes em Teresina, cerca de 200 já foram substituídos pela Equatorial por estarem nessa situação. E não sabemos ainda quantos ainda estão atendendo a uma base de clientes inapropriada, pois o trabalho é feito aos poucos”, afirma Cezario.

 

Fios antigos

 

Devido à falta de investimento feito pela antiga concessionária, há muitos problemas a serem resolvidos. Nos postes, a maioria dos cabos de energia possuem mais de 40 anos, quando a vida útil deles é de 30 anos. “Assim, mesmo que eu troque o transformador, o cabo antigo não vai ter a mesma qualidade que um novo. E isso interfere na energia que chega ao consumidor”, explica o diretor da Equatorial.

 

Apesar do cenário ruim, a empresa promete que o nível da qualidade da energia do Piauí chegará ao patamar a Cemar (concessionária do mesmo grupo, que atende o vizinho Maranhão) em até seis anos. “Quando assumimos a gestão no Maranhão, a situação era a mesma aqui do Piauí. Demorou 15 anos para atingirmos o primeiro lugar no ranking das concessionárias, e por essa experiência, acreditamos que conseguiremos melhorar o serviço no Piauí em bem menos tempo”, prevê Cosme Cezario.

 

A quantidade de vezes que a energia falta tem diminuído (Gráfico: Piauí Negócios)

 

 

Mais duas novas subestações em Teresina

 

Para isso, investimentos estão sendo feitos. Em março de 2020, a Equatorial vai inaugurar uma subestação no polo industrial, melhorando a energia na zona sul. Em agosto de 2020, o bairro Ininga vai ganhar também uma subestação, reforçando a capacidade de energia na zona leste, região que exige muita carga devido ao forte comércio e ao alto poder aquisitivo dos moradores. Atualmente, Teresina conta com oito subestações, que possuem capacidade para atender, em média, entre 40 e 50 mil consumidores.  

 

Cosme Cezario admite que a resolutividade é complexa e que os consumidores têm razão em reclamar, mas a Equatorial está resolvendo a questão da energia em todo o Estado e não tem como olhar apenas para uma região sem esquecer das outras. “Encontramos, por exemplo, vários municípios do Piauí com apenas um único transformador para atender a toda a população. Um exemplo é a cidade de Curral Novo, que tinha queda de energia com frequência muito alta. Estamos agora entregando 18 transformadores lá”, frisa o diretor.

 

A Equatorial ressalta ainda que embora os consumidores queiram soluções imediatas, a empresa não pode fazer todo o investimento de uma vez, pois acarretaria no aumento da tarifa. Por isso, as trocas de cabos e transformadores precisam ser feitas aos poucos.

 

 

Cemar e Celpa, do mesmo grupo da Equatorial, saíram das piores para melhores

 

A Equatorial faz parte do mesmo grupo que controla Cemar (Maranhão) e a antiga Celpa (Pará). Ao comprar as distribuidoras de energia, antes consideradas ineficientes, obteve bons resultados levando-as às primeiras posições no ranking da Aneel.

 

A Equatorial Energia atua no setor elétrico nos segmentos de distribuição, transmissão, geração, comercialização, além da área de telecomunicações e serviços. As empresas que fazem parte do grupo, além da Cemar e Celpa, são a Geramar, Equatorial Transmissão, Intesa, Equatorial Telecom, Sol Energia e 55 Soluções.

 

 

Entidades empresariais não veem melhorias, mas elogiam atendimento

 

A chegada da Equatorial, primeira empresa privada a atuar no sistema elétrico do Piauí, causou grande expectativa no meio empresarial local. Críticas ferozes do serviço prestado pelas antigas concessionárias, entidades da indústria e comércio sempre lutaram para a privatização do setor. Contudo, um ano após a venda da Eletrobras pra a Equatorial, não estão satisfeitos.

 

O vice-presidente do Centro de Indústrias do Estado do Piauí (CIEP), Gilberto Pedrosa, reclama que ainda há muita oscilação de energia, o que prejudica as indústrias do Estado. “A qualidade da energia ainda está bastante deficiente”, critica. Assim como Tertulino, Pedrosa reconhece que o atendimento está mais eficiente.

 

Mas para o setor, o que importa mesmo é a energia estável. “Esperamos que daqui a um ano a Equatorial diga a que veio. Vamos continuar cobrando”, frisa.

 

Gilberto Pedrosa, representante da indústira, espera que a Equatorial mostre a que veio (Foto: Piauí Negócios)

 

Tertulino Passos, presidente do Sindicato dos Lojistas do Piauí (Sindilojas-PI), não observou redução da falta de energia no Piauí, principalmente no centro comercial de Teresina, que possui 6 mil lojistas. Ele admite, no entanto, que o atendimento está mais rápido. “Antes, demorava de três a quatro horas para uma equipe chegar a religar o sistema, agora é no máximo uma hora”, conta.

 

O lojista lembra que a direção da Equatorial se reuniu diversas vezes com empresários anunciando soluções em um ano, mas ele acredita que é preciso dar mais tempo para a empresa, para ver se ela atinge o objetivo. O Sindilojas representa cerca de 20 mil empresários no Piauí, sendo 8 mil na capital.

 

 

Empresários reclamam de prejuízos e problemas no ressarcimento de danos elétricos

 

Empresários que trabalham há anos no Piauí e conhecem a realidade do sistema de energia do Estado chegam a dizer até que piorou o serviço depois da chegada da Equatorial. Alegam prejuízos financeiros tanto com a perda de clientes por conta da falta de energia, como por danos a equipamentos elétricos.

 

Rodrigo Romero, proprietário há nove anos da LavFácil Lavanderia, no bairro Jóquei Cube, zona leste de Teresina, já perdeu as contas de quantas vezes teve que avisar aos clientes que demoraria a entregar as roupas devido à queda de energia. “Teve uma semana que o prejuízo foi de 600 reais. Já tive também problemas de equipamentos queimados. A energia faltou e, quando voltou, só veio em uma fase. Tive que trocar toda a fiação”, lembra o empresário.

 

Rodrigo Romero já teve prejuízos em sua lavanderia (Foto: Arquivo pessoal)


Ele lamenta a burocracia e demora na concessionária em ressarcir os prejuízos.  No tempo da Eletrobras, segundo ele, o processo de indenização demorou dois anos, e ele precisou contratar um técnico de Fortaleza para vir a Teresina emitir o laudo.   No final, ele disse que recebeu apenas 1/10 do prejuízo que teve. “Isso é desestimulante”, reclama.

 

Carlo Marques, empresário da cafeteria Jambu Café, também no Jóquei Clube, não esquece do prejuízo que teve no mês de outubro, após um temporal que deixou quase 24 horas seu estabelecimento sem energia. “Como a luz faltou às 18h30, tive que fechar mais cedo. No sábado, só voltou às 17h e por isso não consegui abrir. Perdi as vendas de parte da sexta e do sábado o dia todo”, afirma.

 

Segundo Marques, os prejuízos entre outubro e novembro resultantes da falta de energia ultrapassaram 5 mil reais. E para ele, não compensa acionar a Equatorial, pois perde-se muito tempo na burocracia. E esse tempo ele prefere usar para se dedicar ao seu negócio.

 

O Jambu Café já chegou a fechar o dia todo por falta de energia (Foto: Divulgação)

 

Sobre o atendimento, Marques reclama que falta explicação da Equatorial. “Eles fazem manutenção sem avisar aos consumidores. Somos surpreendidos com o desligamento de energia sem antecedência”, critica.

 

Outro empresário, João Ricardo, que trabalha no Polo Empresarial Sul, reclama que a Equatorial não tem um processo bem claro para analisar os prejuízos que atingem as empresas. Ele, que trabalha no setor metalúrgico, já teve vários equipamentos queimados. Conta que já teve prejuízo de R$ 10 mil e só recebeu a metade.

 

O empresário Rodrigo Vasconcelos, proprietário da China in Box, no bairro São Cristóvão, zona leste de Teresina, tem a impressão que piorou com a chegada da Equatorial. Ele lembra desde julho já perdeu freezer, um monitor de computador, uma cafeteria, isso sem falar de uma queda entre 40% e 50% nas vendas quando falta energia. “O pior é que não adianta entrar na Justiça, pois é muito demorado. Não vale a pena”, afirma o empresário, que há 20 anos atua no ramo.

 

China in Box tambem já teve prejuízos devido à qualidade da energia (Foto: Divulgação)

 

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